4 de junho de 2007

Recriação do galego-português

Apresento uma recriação de um poema do trovadorismo galego-português, de um poeta galego do fim séc. XIII e começo do XIV, Joam de Cangas. Ainda não sei em que medida é válida uma “recriação” ou “tradução” de um texto galego-português. A praxe das edições modernas é publicar poemas da época acompanhados de notas, e não de tradução, por mais ininteligíveis que sejam. Algumas passagens são tão constrangedoramente transparentes que traduzi-las se resumiria a atualizar a ortografia, a exemplo do que se faz atualmente em textos portugueses no Brasil e vice-versa, mas em muitos momentos o texto galego-português se mostra inacessível ao leitor moderno. Enfim, se alguém tiver uma opinião ou sugestão a respeito, será muito bem-vinda.


Eu fui, mãe, a São Mamede, onde cuidei
que vísseis meu amigo, que lá não foi,
e ao sair, tão formosa que até me dói,
eu me disse, como agora vos direi:
pois se não vem, sei muito bem:
por mim se perdeu, que nunca lhe fiz bem.

Quando eu a São Mamede fui e não vi
meu amigo, com quem queria falar,
com muito fervor, nas ribeiras do mar,
suspirei no coração e concluí:
pois se não vem, sei muito bem:
por mim se perdeu, que nunca lhe fiz bem.

Depois que fiz na igreja minha oração
e não vi o que me queria tão bem,
ao pesar que me abateu o seu desdém
eu logo disse assim, em conclusão:
pois se não vem, sei muito bem:
por mim se perdeu, que nunca lhe fiz bem.

(Recriação: Fábio Aristimunho)


O original:

Fui eu, madr’, a San Momed’u me cuidei
que veess’o meu amigo, e non foi i,
por mui fremosa que triste m’en partí,
e dix’eu como vos agora direi:
pois i non ven, sei unha ren:
por mi se perdeu, que nunca lhi fiz ben.

Quand’eu a San Momede fui e non vi
meu amigo, con que quisera falar
a mui gran sabor, nas ribeiras do mar,
sospirei no coraçón e dix’assí:
pois i non ven, sei unha ren:
por mi se perdeu, que nunca lhi fiz ben.

Depois que fiz na ermida oraçón
e non vi o que mi quería gran ben,
con gran pesar filhóuxime gran tristén
e dix’eu log’assí esta razón:
pois i non ven, sei unha ren:
por mi se perdeu, que nunca lhi fiz ben.

(Joam de Cangas)


4 comentários:

Lunna disse...

O interessante do seu blog são as possibilidades. É bom descobrir novas janelas, mesmo para aqueles que não apreciam a tradução. Afinal, há o original.
Abraços

Fábio Aristimunho disse...

Olá, Lunna,
Sim, faço questão de colocar sempre o original, para quem quiser confrontar a versão ou só ficar com ele.
Abraço

assis disse...

traduz este texto para mim..

Ai eu coitad! E por que vi

a dona que por meu mal vi!

Ca Deus lo sabe, poila vi,

nunca já mais prazer ar vi;

ca de quantas donas eu vi,

tam bõa dona nunca vi.



Tam comprida de todo bem,

per boa fé, esto sei bem,

se Nostro Senhor me dê bem

dela! Que eu quero gram bem,

per boa fé, nom por meu bem!

Ca pero que lh’eu quero bem,

non sabe ca lhe quero bem.



Ca lho nego pola veer,

pero nona posso veer!

Mais Deus, que mi a fezo veer,

rogu’eu que mi a faça veer;

e se mi a non fazer veer.

sei bem que non posso veer

prazer nunca sem a veer.



Ca lhe quero melhor ca mim,

pero non o sabe per mim,

a que eu vi por mal de mi[m].



Nem outre já, mentr’ eu o sem

houver; mais s perder o sem,

dire[i]-o com mingua de sem;



Ca vedes que ouço dizer

que mingua de sem faz dizer

a home o que non quer dizer![1]

assis disse...

por favor...
eu ainda quero hoje..
tah fleu