VÍDEO-POEMA: "De um trabalhador confiscado na Ponte da Amizade"
Vídeo-poema feito sob encomenda do Instituto Cervantes para o evento "Poesia y Guerra Civil Española: diálogos e intervenciones", realizado no dia 23 de abril de 2009 na sede do IC em São Paulo. A organização do evento propôs a diversos escritores latino-americanos que realizassem um "diálogo" com algum poema da época da Guerra Civil.
De um trabalhador confiscado na Ponte da Amizade
...........A partir do poema “A um trabalhador assassinado”
...........(Langille eraildu bati), do poeta basco Lauaxeta
...........(1905-1937),que morreu fuzilado na Guerra Civil
Como trabalhadores, todos somos
um pouco a cada dia assassinados.
A cada dia um pouco relembrados
que trazemos em nossos cromossomos
o que podíamos ser mas não fomos
por nossa culpa, pois não estudados.
Nessa guerra incivil dos tributados,
nossa bagagem tanta, feito os pomos-
-de-Adão dos travestis, nos denuncia
à distância à polícia aduaneira,
que sabe aliviar toda caçamba
dos excessos. Vivemos na fronteira
de nós mesmos, e somos nós a muamba
que é confiscada um pouco a cada dia.
...........Foz do Iguaçu, abril de 2009
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Comentário sobre o processo criativo
A Guerra Civil Espanhola teve grande impacto sobre quatro literaturas que convivem sobrepostas no território da Espanha. As literaturas galega, espanhola, catalã e basca sofreram igualmente com o desaparecimento de toda uma geração de escritores, perdida na guerra e no exílio.
Decidi homenagear um escritor basco, que escrevia em uma língua praticamente inacessível para além de suas fronteiras linguísticas. A obra do poeta Lauaxeta (1905-1937), que morreu fuzilado na Guerra Civil, causou por si mesma uma revolução nas letras bascas, introduzindo-as diretamente na Modernidade. Seu prematuro desaparecimento, aos 32 anos de idade, foi uma dentre as muitas perdas que a literatura basca demoraria a superar.
O poema que selecionei, “A um trabalhador assassinado” (Langille eraildu bati), trata de um dos temas que estavam na pauta original da Guerra Civil: a justiça social nas relações trabalhistas e o uso do aparato estatal para reprimir a classe trabalhadora.
Trasladando esse tema para meu tempo e lugar, a fronteira Brasil–Paraguai neste final da primeira década do séc. XXI, constato que permanece na pauta do dia o uso da força policial para reprimir trabalhadores que não têm outra perspectiva – a menos que se considere a criminalidade uma perspectiva – senão viverem na informalidade.
Diariamente são apreendidos na fronteira grandes volumes de mercadorias que seriam revendidas a preço baixo em diferentes pontos do território brasileiro. Mercadorias como brinquedos, eletrônicos e quinquilharias, responsáveis por colocar o pão na mesa de inúmeras famílias.
Em meu poema “De um trabalhador confiscado na Ponte da Amizade” procuro dar voz a um desses trabalhadores que vivem na fronteira de si mesmos.
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