19 de julho de 2007

Xangô - Eduardo Lacerda

Belíssimo poema lido por Eduardo Lacerda, em 29/6/07, no recital "Aberto para Balanço: Leitura de Poesia Contemporânea", que abriu a FLAP 2007:

Xangô

Para Fábio Aristimunho Vargas

Quase
sem nenhum
motivo a pedra ataque
pedra ataque para o vidro
quebra
na cabeça do melhor
amigo
o seu
último
último suspiro.
O nosso azar
nos pedaços repartido,
como bolo ou migalha de,
e com brilho
próprio,
onde nele me reflito,
pois assim o imagino
algo imaginário
como espírito
que sigo.
O que atirou primeiro
a primeira pedra
e acertou
o vidro.
Eu o injustiço.
Nós errávamos.

Eduardo Lacerda


Obrigado, Eduardo, pela dedicatória!

11 de julho de 2007

Petrobras Cultural - resultado em criação literária

Saiu hoje o resultado do Programa Petrobras Cultural 2006/2007, que concede patrocínio às seguintes áreas: (i) Preservação e Memória, (ii) Formação e (iii) Produção e Difusão - cinema, música, artes cênicas e literatura.

A seguir estão listados os projetos contemplados em criação literária. Os outros resultados podem ser encontrados neste link.

*

PROGRAMA PETROBRAS CULTURAL - SELEÇÃO 2006 / 2007
PRODUÇÃO E DIFUSÃO - LITERATURA
CRIAÇÃO LITERÁRIA: FICÇÃO E POESIA


PROJETOS CONTEMPLADOS

AMOSTRAGEM COMPLEXA
Protocolo: 296
Proponente: Simone Silva Campos
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Livro de contos de uma autora que já tem dois romances publicados.

UM A MENOS
Protocolo: 704
Proponente: Heitor Ferraz Mello
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de poemas que versam sobre o ambiente urbano, focalizando com particular interesse os elementos inquietantes da cidade.

HOTEL NOVO MUNDO
Protocolo: 1147
Proponente: Ivana De Arruda Leite
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Romance sobre a São Paulo contemporânea, enfatizando a vida cotidiana dos habitantes humildes do centro.

A FILHA DO ESCRITOR
Protocolo: 1397
Proponente: Gustavo Bernardo Galvão Krause
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Romance metaficcional, tematizando o universo literário de Machado de Assis por meio da história de uma protagonista que se vê filha do escritor e que está internada num manicômio.

UMA HISTÓRIA À MARGEM
Protocolo: 1542
Proponente: Ricardo De Carvalho Duarte - Chacal
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Narrativa ficcional de aspecto memorialístico que repassa a experiência da poesia marginal, do teatro experimental e da poesia falada a partir dos anos 70.

CORPO-A-CORPO COM O CONCRETO - ROMANCE
Protocolo: 1815
Proponente: Bruno Zeni
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Proposta de romance articulada a partir de duas histórias narradas em primeira pessoa, uma de um jornalista e outra de um morador de rua, ambas em São Paulo.

CASO OBLÍQUO
Protocolo: 1909
Proponente: Maria Beatriz de Almeida Magalhães
Estado do Proponente: MG
Apresentação: Romance que se dispõe a recriar o sentido e o horizonte histórico da fundação de Belo Horizonte, explicitando a passagem do rural agrário para o urbano industrial.

PEIXE MORTO
Protocolo: 2024
Proponente: Marcus Vinicius de Freitas
Estado do Proponente: MG
Apresentação: Híbrido de romance histórico com romance policial, o projeto recupera os debates sobre o evolucionismo darwinista, na paisagem atual de Belo Horizonte.

ROÇA BARROCA
Protocolo: 2052
Proponente: Josely Vianna Baptista
Estado do Proponente: PR
Apresentação: Livro de poesias que tematiza elementos da cultura indígena do oeste do Paraná.

ONDE NÃO HÁ JARDIM
Protocolo: 2066
Proponente: Ana Paula Sá e Souza Pacheco
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de contos que tem como ambiente a cidade de São Paulo.

A FÁBRICA DO FEMININO
Protocolo: 2186
Proponente: Paula Glenadel
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Livro de poesia organizado em torno da noção do “feminno” na perspectiva do humano.

SOB O DUPLO INCÊNDIO
Protocolo: 2648
Proponente: Carlos Eduardo Barbosa de Azevedo (Carlito Azevedo)
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Livro de poemas no qual o poeta retorna aos grandes núcleos temáticos dos seus trabalhos anteriores.

ALGUM LUGAR
Protocolo: 3373
Proponente: Paloma Vidal
Estado do Proponente: DF
Apresentação: Projeto de romance pautado no conflito entre esfera intima e convívio social.

MODELOS VIVOS
Protocolo: 3393
Proponente: Ricardo Aleixo
Estado do Proponente: MG
Apresentação: 60 poemas explorando aspectos plástico-visuais e sonoros da palavra.

TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS
Protocolo: 3472
Proponente: Rodrigo Antonio de Souza Leão
Estado do Proponente: RJ
Apresentação: Apresentado como uma espécie de delírio, mesclando nomes de remédios, visões literárias fantasmais e registros do cotidiano, o texto é um estudo de caso em forma de ficção.

"RUMINAÇÃO À BEIRA DO RIO PINHEIROS"
Protocolo: 3496
Proponente: Alberto Alexandre Martins
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Projeto de dialogo poético com Mario de Andrade com outras meditações.

PROJETO LITERÁRIO PRIMAVERA NOS OSSOS - ROMANCE
Protocolo: 3533
Proponente: Alessandra Leila Borges Gomes
Estado do Proponente: BA
Apresentação: Romance com linguagem experimental focada na representação da experiência de uma mulher estuprada.

RELÓGIO SEM SOL
Protocolo: 3676
Proponente: Carlos Adão Volpato (Cadão Volpato)
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de ficção reunindo escritos sobre a passagem do tempo.

ALEIJÃO (LIVRO DE POEMAS)
Protocolo: 3714
Proponente: Eduardo Sterzi
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro de poemas voltados para a reflexão sobre os lugares de irrupção da violência.

"ESSA COISA BRILHANTE QUE É A CHUVA"
Protocolo: 3798
Proponente: Cintia Moscovich
Estado do Proponente: RS
Apresentação: livro de contos com temática voltada para a contingência do individuo no mundo.

A EXTINÇÃO DA INFÂNCIA
Protocolo: 3826
Proponente: João Carlos (Joca) Reiners Terron
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Romance que tematiza a perda do universo infantil, numa estrutura e numa linguagem impactante.

“PIER, TRÓPICO”, UM LIVRO DE POEMAS
Protocolo: 4196
Proponente: Sérgio Alcides
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Livro que reúne poemas em série e outros avulsos em torno de três imagens: “ossada”, “píer” e “trópico”.

"EU QUERO SER EU"
Protocolo: 4630
Proponente: Clara Averbuck
Estado do Proponente: SP
Apresentação: Proposta de romance juvenil, tematizando a história de uma adolescente em choques com os valores conservadores.

20 de junho de 2007

Outubro - Juan Ramón Jiménez

Um poema do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez (1881-1958), que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1953 em Porto Rico, onde se refugiou da Guerra Civil Espanhola.


Outubro

Prostrado estava eu na terra, frente
aos infinitos campos de Castela,
que o outono envolvia na amarela
doçura de seu claro sol poente.

Tão lento, o arado paralelamente
abria a gleba escura, e a singela
mão aberta deixava o grão naquela,
em sua entranha exposta honradamente.

Pensei tirar meu coração, jogá-lo,
pleno de seu sentir alto e profundo,
no largo sulco do terreno terno,

para ver se ao rompê-lo e ao semeá-lo
a primavera mostraria ao mundo
a árvore pura do amor eterno.

(trad. Fábio Aristimunho)


O original:

Octubre

Estaba echado yo en la tierra, enfrente
del infinito campo de Castilla,
que el otoño envolvía en la amarilla
dulzura de su claro sol poniente.

Lento, el arado, paralelamente
abría el haza oscura, y la sencilla
mano abierta dejaba la semilla
en su entraña partida honradamente.

Pensé arrancarme el corazón, y echarlo,
pleno de su sentir alto y profundo,
al ancho surco del terruño tierno;

a ver si con romperlo y con sembrarlo,
la primavera le mostraba al mundo
el árbol puro del amor eterno.

(Juan Ramón Jiménez)



14 de junho de 2007

Lançamento: 12 poetas catalães

FLAP! 2007 - programa e informações

FLAP 2007: CONTAMINAÇÕES


Blogue: http://flap2007.zip.net/

Contato: flap@projetoidentidade.org ou imprensa@projetoidentidade.org

Vídeos:
aqui


São Paulo:
- 29 de junho. Casa das Rosas (Av. Paulista, n° 37)
- 30 de junho e 1º de julho. Espaço dos Satyros I (Pça. Roosevelt, nº 214)

Rio de Janeiro:
- 4 e 5 de agosto de 2007 (programação em breve)

Realização: Projeto Identidade

Apoio: O Casulo, Casa das Rosas, Os Satyros & Sebo do Bac


PROPOSTA

Realizada pela primeira vez em 2005, a FLAP! chega à sua 3ª edição. Desde sua concepção, a FLAP! propõe-se a encarar sem reverencialismo a obra literária e seu processo de criação, evitando que a reunião dos membros das mesas se transforme em motivo de espetáculo por receber "celebridades culturais". O evento é gratuito e aberto ao público em geral.

Percorrerá a FLAP! 2007 o tema Contaminações. A idéia é debater as mais variadas fontes de contaminação da literatura hoje. Serão abordadas formas artísticas cujo desenvolvimento está diretamente relacionado com a produção literária atual, mas que, ou são diminuídas como se fossem artes inferiores, ou não têm sua relação com a literatura colocada em destaque. Por Contaminações também será discutida a relação da literatura brasileira com a literatura dos demais países da América Latina. Com a integração na ordem do dia, é preciso entender a complexidade dos muros que dividem o Brasil de seus vizinhos para compreender - e, por que não?, estimular - essa tão nebulosa influência recíproca.

A FLAP! 2007 começará em São Paulo no dia 29 de junho, com uma leitura de poesia contemporânea na Casa das Rosas (Av. Paulista, n° 37). O evento prossegue com debates nos dias 30 de junho e 1º de julho no Espaço dos Satyros I (Pça. Roosevelt, n° 214). Haverá também feira de livros na Pça. Roosevelt durante o final de semana.

No Rio de Janeiro ocorrerá nos dias 4 e 5 de agosto, maiores detalhes em breve.

Assista vídeos sobre a proposta da FLAP!, sobre seu começo e outros no Canal da FLAP no Youtube:
www.youtube.com/flap2007


PROGRAMAÇÃO - São Paulo
sujeita a modificações

Sexta-feira, 29 de junho

Aberto para Balanço: Leitura de Poesia Contemporânea


Casa das Rosas (Av. Paulista, nº 37)
Formato: cada poeta lerá poemas de sua autoria e homenageará outros poetas.

19h: Apresentação: Frederico Barbosa
Abertura: Eduardo Lacerda e Thiago Ponce, Projeto Identidade

Alfredo Fressia (Contador Borges e Fábio Aristimunho Vargas)
Antônio Vicente Pietroforte (Del Candeias e Delmo Montenegro)
Bruna Beber (a confirmar)
Cláudio Daniel (Eduardo Jorge e Adriana Zapparoli)
Cláudio Willer (lê amigos)
Dirceu Villa (Ana Rüsche e Ricardo Domeneck)
Fabiano Calixto (Benjamin Prado)
Horácio Costa (César Vallejo e Xavier Villaurrutia)

21h - Intervalo
Lilian Aquino (Andréa Catropa e Heitor Ferraz)
Maiara Gouveia (Cláudia Roquette-Pinto e Rodrigo Petrônio)
Mavot, Cooperifa (Eduardo Lacerda e Sérgio Vaz)
Paulo Ferraz (Donizete Galvão e Fábio Weintraub)
Pedro Tostes (Maloqueiristas: Berimba de Jesus e Caco Pontes)
Ronald Polito (Carlos de Oliveira e Júlio Castañon Guimarães)
Ruy Proença (Antônio Moura, Eucanaã Ferraz e Rubens Rodrigues Torres Filho)
Sérgio Mello (Augusto Silva e Luana Vignon)

Sábado, dia 30 de junho
Espaço dos Satyros I, Pça. Roosevelt, nº 214

[1] 10h às 11:30h - Abre-alas: Contaminações
Mediação: Andréa Catropa, poeta
- Antonio Vicente Pietroforte, escritor e Prof. Dr. Depto. Lingüística, FFLCH-USP
- Glauco Mattoso, poeta
- Anselmo Luis, o Bactéria
- Marcelino Freire, escritor

[2] 13h às 14:30h - Turma do Fundão: A Literatura na Sala de Aula
Mediação: Ivan Antunes, poeta
- Maria Elisa Cevasco, Profa. Dr. Depto. Letras Modernas, FFLCH-USP
- Rodrigo Ciríaco, escritor e educador
- Eduardo Araújo Teixeira, professor da rede pública (a confirmar)
- Adilson Miguel, editor de literatura juvenil
- Eduardo Lacerda, editor de O Casulo - Jornal de Poesia Contemporânea

[3] 14:30h às 17h - E quem vive disso?
Mediação: Ana Paula Ferraz, jornalista e escritora
- Marcelo Siqueira Ridenti, Prof. Titular de Ciência Política, UNICAMP
- Santiago Nazarian, escritor
- Maria Luíza Mendes Furia, poeta
- Andrea Del Fuego, escritora
- Juliano Pessanha, escritor

Domingo, dia 1º de julho
Espaço dos Satyros I, Pça. Roosevelt, nº 214

[4] 12h às 13:30h - O Além Livro
Mediação: Del Candeias, poeta
- Alberto Guzik, crítico, escritor e dramaturgo
- Lourenço Mutarelli, escritor e cartunista
- Mario Bortolotto, escritor e dramaturgo
- Eduardo Rodrigues, escritor e roterista de quadrinhos

[5] 14:30h às 16h - Influenza: Soy loco por ti América
Mediação: Fabio Aristimunho Vargas
- Vanderley Mendonça, editora Amauta
- Horacio Costa, poeta e Prof. Dr. Depto. Letras Clássicas
- Maria Alzira Brum, tradutora e escritora (a confirmar)
- Alfredo Fréssia, poeta e tradutor
- Joca Terron, escritor

16h - Encerramento
Leitura de Marcelo Mirisola
Divulgação do vencedor do Concurso Sigla FLAP! 2007

OUTRAS INFORMAÇÕES

Inscrições: Para participar da FLAP! não é preciso realizar inscrições prévias, respeitaremos a ordem de chegada do público.
Certificados: quem precisar de certificados deverá preencher ficha de cadastro na abertura dos debates (sábado, 10h). Os certificados serão entregues no encerramento do evento (domingo, 16h). Dúvidas? Escreva para
flap@projetoidentidade.org.





CONCURSO DA SIGLA FLAP!: O que significa "F.L.A.P.?". Deixe sua sugestão com os organizadores durante o evento! No domingo, a melhor sigla será premiada!


12 de junho de 2007

Ver e ouvir estrelas...

O Clube de Astronomia de São Paulo (CASP) realizará nesta quarta-feira “Ver e Ouvir Estrelas”, um evento de caráter astronômico e literário na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.

Haverá exposição de trabalhos de astrofotógrafos brasileiros (Fábio Carvalho, José Carlos Diniz, Marco De Bellis), leitura de poemas com temática relativa à astronomia (com a presença dos poetas Alberto Martins, Andréa Catrópa, Annita Costa Malufe, Eduardo Lacerda, Fábio Aristimunho, Flávia Rocha, Frederico Barbosa, Renan Nuernberger e Victor Del Franco), palestra sobre astrofotografia com o Prof. Dr. Roberto Costa (Universidade de São Paulo), além de observação do céu com telescópios. Mais informações podem ser obtidas pelo endereço eletrônico astrocasp@uol.com.br.

Convite - imagem - em arquivo anexado a esta mensagem.

Ver e ouvir estrelas
Exposição de astrofotografias, leitura de poemas, palestra e observação do céu
Data: 13/06 (quarta-feira)
Horário: das 19h às 22h30
Local: Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura - Avenida Paulista, 37 – Metrô Brigadeiro
Entrada franca
Realização: CASP – Clube de Astronomia de São Paulo - http://www.astrocasp.com.br


9 de junho de 2007

De novo nada / Evidências pedestres



O poeta Paulo Ferraz, autor de Constatação do óbvio (Selo Sebastião Grifo, 1999), está lançando dois livros numa tacada só: De novo nada, uma pequena odisséia urbana e fragmentária em 500 versos, e Evidências pedestres, coletânea dos poemas produzidos pelo autor desde seu primeiro livro.

O lançamento será dia 11 de junho, na Feira Moderna, Vila Madalena, e além de ser um dos mais aguardados dos últimos anos promete ser um dos mais relembrados nos próximos! A conferir.

Lançamento do Paulo Ferraz
Evidências Pedestres e De Novo Nada.
11 de junho, 19h, Feira Moderna
R. Fradique Coutinho, n° 1246.
http://denovonada.zip.net

8 de junho de 2007

A um trabalhador assassinado

Tradução do poeta basco Lauaxeta, pseudônimo de Esteban Urkiaga (1905-1937), que assim como Lorca foi fuzilado na Guerra Civil.

A um trabalhador assassinado

..................I

...Minas vermelhas da minha Viscaia,
ferida aberta na montanha verde!
Ó mineiro do rosto tão moreno,
carrega no ombro tua picareta.
Tua afiada picareta no ombro
ao sol vai reluzindo, morro abaixo.
Vem na trilha – a manhã em tuas costas –
até a fábrica do céu cizento.
Há rumores de greve pelas ruas
– punhos cerrados, macacões azuis –.
De sua parte, os patrões, sempre indolentes,
contam com tua ajuda, ó telefone.
Ó mineiro do rosto tão moreno,
correm telefonemas pelos fios.
Como reluzem tantas capas negras
da guarda civil vindo pela trilha!
E como se parelham a bandidos
com seus longos fuzis trazidos no ombro!
Minas vermelhas da minha Viscaia,
ferida aberta na montanha verde!

..................II

...Morro abaixo vai, entre quatro guardas,
o mineiro do rosto tão moreno.
Seus olhos negros são como punhais,
mas que não podem irromper o cerco.
Para onde carregam algemado
esse teu corpo forte cor de ferro?
Se tivesses coragem, molharias
a picareta em sangue inimigo.
Às margens do Nervião – tremor de trilhos –,
quanto esforço, querendo libertar-se!
Mas os seu grito não se pode ouvir
devido ao ruído enérgico das fábricas!
Os longos fuzis ficam fumegantes
– há rumores de greve pelas ruas –.
Ó mineiro do rosto tão moreno,
há de banhar-te no teu próprio sangue!
Na casa Gómez beberão os guardas
civis, depois de tudo, o melhor vinho.
Minas vermelhas da minha Viscaia,
ferida aberta na montanha verde!


..................1931


O original:

Langille eraildu bati

..................I

...¡Ene Bizkai'ko miatze gorri
zauri zarae mendi ezian!
Aurpegi balzdun miatzarijoi
ator pikotxa lepo-ganian.
Lepo-ganian pikotx zorrotza
eguzki-diz-diz ta mendiz bera.
Ator bideskaz, —goxa sorbaldan—,
kezko zeruba yaukon olera.
Opor-otsa dok txaide zabalan,
—ukabil sendo, soñanzki urdin—.
Jaubiak, barriz, nasai etzunda,
laguntzat auke, i, urrutizkin.
Aurpegi balzdun miatzarijoi
ari bittartez deyak yabiltzak.
¡Bideskan zelan dirdir-yagijek
txapel-okerren kapela baltzak!
¡Orreik yaukoen gaizkin-itxura
sispa luziak lepo-ganian!
¡Ene Bizkai'ko miatze gorri,
zauri zarae mendi ezian!

..................II

...Mendiz bera lau txapel-okerrez
aurpegi balzdun miatzarija.
Begi baltz orreik sastakai dozak
baña zatittu ezin esija.
¿Noruntz aroe esku-lotuta
burni margodun gorputz gogorroi?
¡Sendua ba'intz, etsai-odolez
bustiko eunkek pikotx zorrotzoi!
¡Nerbion-ertzok, —tranbi-dardara—,
azkatu-nayez, zenbat alegin!
Baña olaen zarata-artian
aren ayotsik adittu-ezin!
Sispa luziak sutan yagozak,
—opor-zaratak txaide zabalan—.
¡Aurpegi balzdun miatzarijoi
igeri adi eure odolan...!
Txapel-okerrak edango yabek
ardao onena Gomez-etxian.
¡Ene Bizkai'ko miatze gorri,
zauri zarae mendi ezian!

..................1931



4 de junho de 2007

Recriação do galego-português

Apresento uma recriação de um poema do trovadorismo galego-português, de um poeta galego do fim séc. XIII e começo do XIV, Joam de Cangas. Ainda não sei em que medida é válida uma “recriação” ou “tradução” de um texto galego-português. A praxe das edições modernas é publicar poemas da época acompanhados de notas, e não de tradução, por mais ininteligíveis que sejam. Algumas passagens são tão constrangedoramente transparentes que traduzi-las se resumiria a atualizar a ortografia, a exemplo do que se faz atualmente em textos portugueses no Brasil e vice-versa, mas em muitos momentos o texto galego-português se mostra inacessível ao leitor moderno. Enfim, se alguém tiver uma opinião ou sugestão a respeito, será muito bem-vinda.


Eu fui, mãe, a São Mamede, onde cuidei
que vísseis meu amigo, que lá não foi,
e ao sair, tão formosa que até me dói,
eu me disse, como agora vos direi:
pois se não vem, sei muito bem:
por mim se perdeu, que nunca lhe fiz bem.

Quando eu a São Mamede fui e não vi
meu amigo, com quem queria falar,
com muito fervor, nas ribeiras do mar,
suspirei no coração e concluí:
pois se não vem, sei muito bem:
por mim se perdeu, que nunca lhe fiz bem.

Depois que fiz na igreja minha oração
e não vi o que me queria tão bem,
ao pesar que me abateu o seu desdém
eu logo disse assim, em conclusão:
pois se não vem, sei muito bem:
por mim se perdeu, que nunca lhe fiz bem.

(Recriação: Fábio Aristimunho)


O original:

Fui eu, madr’, a San Momed’u me cuidei
que veess’o meu amigo, e non foi i,
por mui fremosa que triste m’en partí,
e dix’eu como vos agora direi:
pois i non ven, sei unha ren:
por mi se perdeu, que nunca lhi fiz ben.

Quand’eu a San Momede fui e non vi
meu amigo, con que quisera falar
a mui gran sabor, nas ribeiras do mar,
sospirei no coraçón e dix’assí:
pois i non ven, sei unha ren:
por mi se perdeu, que nunca lhi fiz ben.

Depois que fiz na ermida oraçón
e non vi o que mi quería gran ben,
con gran pesar filhóuxime gran tristén
e dix’eu log’assí esta razón:
pois i non ven, sei unha ren:
por mi se perdeu, que nunca lhi fiz ben.

(Joam de Cangas)


31 de maio de 2007

L’Hotel París - Vicent Andrés Estellès

Um poema do valenciano Vicent Andrés Estellès (1924-1993), do livro L’Hotel París, 1973

XV

Pode alguém ter morrido no leito em que me deito,
talvez estes lençóis já tenham envolvido,
por um momento, um morto, um pobre morto incógnito,
enquanto decidia o juiz sobre seu corpo;
talvez tenha morrido alguém que vinha ver
um assunto, umas coisas: morreu alguém, sem dúvida,
no leito em que me deito, uma noite qualquer,
longe de sua casa, de seu povo, dos seus,
do curral e gerânios, da esposa, de seus pais.
Algum adolescente dedicou a Onan,
de joelhos sobre a cama, seu cântico febril.
Alguém não se deitou, andando pelo quarto
preocupado, fumando, desperto a noite toda.
Pode, uma noite, ter parido uma mulher,
chorado uma criança, gemido alguma virgem,
ter-se perpetrado isso que chamam adultério.
Pode ter, nesta cama, morrido uma criança.

Trad. Fábio Aristimunho


O original:

XV

Potser ha mort algú en el llit on em gite,
potser aquests llençols varen embolcallar,
de moment, algun mort, un pobre mort incògnit,
mentre se n’feia càrrec el Jutjat del seu cos;
potser ha mort algú que venia a resoldre
un assumpte, unes coses: algú ha mort, sense dubte,
en el llit on em gite, una nit qualsevulla,
lluny de la seua casa, del seu poble, dels seus,
del corral i els geranis, de l’esposa, dels pares.
Algun adolescent ha dedicat a Onan,
de genolls en el llit, el seu càntic febril.
Algú no s’ha gitat, passetjant per l’estança
preocupat, fumant, despert tota la nit.
Potser, alguna nit, ha parit una dona,
ha plorat un infant, ha cridat una verge,
s’ha perpetrat allò que en diuen adulteri.
Potser, en aquest llit, va morir un infant.

Vicent Andrés Estellès


25 de maio de 2007

Charada do filho pródigo

Um pai muito generoso com seu filho recebe dele o seguinte bilhete:

..........SEND +
.........MORE
....._________
.......MONEY

O pobre senhor fica em dúvida a respeito da mensagem e não sabe de quanto o filho precisa.

Após pensar um pouco, ele descobre o valor e resolve mandar para o filho o seguinte bilhete:


.....FATHER - MONEY = GO WORK!

Quanto o filho pediu ao pai?

Responda nos comentários; só há uma resposta correta. O gabarito sairá oportunamente.

24 de maio de 2007

Laçamento infantil: "O sapo apaixonado"



Donizete Galvão é poeta e jornalista mineiro radicado em São Paulo. Publicou os livros Azul navalha (1988), que lhe valeu o prêmio APCA de autor revelação, As faces do rio (1991), Do silêncio da pedra (1996), A carne e o tempo (1997), Ruminações (2000) e Mundo mudo (2003). Agora faz sua estréia na literatura infantil, com o livro O sapo apaixonado.

Tomo a liberdade de transcrever o simpático convite do autor:

"Caros amigos: fui inventar de escrever livro infantil e agora faço parte do MSP - Movimento dos Sem Público. As 'crianças' dos meus a amigos estão com mais de 20 anos. Venham comprar para priminhos, sobrinhos, afilhados e filhos de amigos. Ou, então, apenas fazer uma presença VIP e tomar um pouco de vinho. Pelo menos a gente conversa e ali perto tem um atrativo, o árabe Halim, com seu delicioso almoço."

22 de maio de 2007

Poema - Sor Juana Inés de la Cruz

Tradução de um poema moralista de Sor Juana Inés de la Cruz (Juana de Asbaje y Ramírez), poeta e freira mexicana (1648?-1695).


Homens néscios

..........Argúi ser inconseqüência o gosto e
..........a censura dos homens, que às mulheres
..........acusam do que eles causam



..Homens néscios a acusar
às mulheres sem razão,
sem ver que são a ocasião
do que as estão a culpar.

..Se com ânsia sem igual
estimulam seu desdém,
por que querem que obrem bem
se as incitam para o mal?

..Combatem sua resistência,
e em seguida com maldade
dizem que foi leviandade
o que fez sua insistência.

..Querem com vil presunção
achar a que lhes condiz:
em compromisso, Taís,
e Lucrécia em possessão.

..Que humor pode ser mais raro
que o que recusa um conselho?
O mesmo que encobre o espelho
diz que não lhe está bem claro.

..Com o favor ou o desdém
o resultado é igual:
se queixam, se os tratam mal;
enganam, se os querem bem.

..Opinião nenhuma ganha,
pois a que mais se recata,
se não lhes aceita, é ingrata,
e, se aceita, é piranha.

..Sempre tão tolos a andar
com seu discurso fiel,
a uma a chamar de cruel
e a outra de fácil chamar.

..Como talvez se interesse
a que seu amor pretende,
se à que é ingrata ofende
e à que é fácil aborrece?

..Mas entre o aborrecimento
e a pena, de seu deleite,
também há quem os rejeite
e que os deixe em bom momento.

..Às amantes que mantêm
lhes dão asas sem domá-las,
e após mal acostumá-las
querem encontrá-las bem.

..Maior culpa terá havido,
em uma paixão errada,
aquela que cai prostrada
ou o que se prostra caído?

..Qual é mais de se culpar,
ainda que ambos seu mal tragam:
a que peca porque pagam
ou o que paga por pecar?

..Então para que espantar-se
pela culpa que não têm?
Queiram a que lhes convém
ou convenham para amar-se.

..Parem de tanto insistir
e depois com mais razão
à atitude acusarão
da que então os seduzir.

..Com muitas armas ao fundo
luta sua prepotência,
pois em promessa e insistência
juntam diabo, carne e mundo.

(Trad. Fábio Aristimunho)


O original:

Hombres necios

..........Arguye de inconsecuencia el gusto y
..........la censura de los hombres, que en las
..........mujeres acusan lo que causan



..Hombres necios que acusáis
a la mujer sin razón,
sin ver que sois la ocasión
de lo mismo que culpáis.

..Si con ansia sin igual
solicitáis su desdén,
¿por qué queréis que obren bien
si las incitáis al mal?

..Combatís su resistencia,
y luego con gravedad
decís que fue liviandad
lo que hizo la diligencia.

..Queréis con presunción necia
hallar a la que buscáis,
para pretendida, Tais,
y en la posesión, Lucrecia.

..¿Qué humor puede ser más raro
que el que falta de consejo,
él mismo empaña el espejo
y siente que no esté claro?

..Con el favor y el desdén
tenéis condición igual,
quejándoos, si os tratan mal,
burlándoos, si os quieren bien.

..Opinión ninguna gana,
pues la que más se recata,
si no os admite, es ingrata
y si os admite, es liviana.

..Siempre tan necios andáis
que con desigual nivel
a una culpáis por cruel
y a otra por fácil culpáis.

..¿Pues cómo ha de estar templada
la que vuestro amor pretende,
si la que es ingrata ofende
y la que es fácil enfada?

..Mas entre el enfado y pena
que vuestro gusto refiere,
bien haya la que no os quiere
y quejaos enhorabuena.

..Dan vuestras amantes penas
a sus libertades alas,
y después de hacerlas malas
las queréis hallar muy buenas.

..¿Cuál mayor culpa ha tenido
en una pasión errada,
la que cae de rogada
o el que ruega de caído?

..¿O cuál es más de culpar,
aunque cualquiera mal haga:
la que peca por la paga
o el que paga por pecar?

..Pues ¿para qué os espantáis
de la culpa que tenéis?
Queredlas cual las hacéis
o hacedlas cual las buscáis.

..Dejad de solicitar
y después con más razón
acusaréis la afición
de la que os fuere a rogar.

..Bien con muchas armas fundo
que lidia vuestra arrogancia,
pues en promesa e instancia
juntáis diablo, carne y mundo.

(Sor Juana Inés de la Cruz)


21 de maio de 2007

Aniversário da Marossi

O medianeiro pede licença para de vez em quando dar uma de colunista social do pequeno mundo literário. Nesta semana apresentamos o aniversário da Carol Marossi, que foi no sábado último, no Geni.

a aniversariante

os presentes

o bolinho

a vela

confabulando

pegando o batatão

molhando o batatão

mordendo o batatão

os quatis

18 de maio de 2007

Blogue da FLAP

Já está no ar o blogue da FLAP 2007:

http://flap2007.zip.net/

No blogue os organizadores da FLAP escreverão diariamente até a data do evento, seguindo esta escala:

- segunda: Andréa Catropa
- terça: Ana Rüsche
- quarta: Victor del Franco
- quinta: Fábio Aristimunho
- sexta: Ivan Antunes
- sábado: Gus Assano
- domingo: Thiago Ponce

Acompanhe a programação da FLAP e a cena literária!

16 de maio de 2007

Vem aí: FLAP 2007


FLAP 2007: CONTAMINAÇÕES
Blog
: http://flap2007.zip.net
Contato: flap@projetoidentidade.org

Dias 30 de junho e 1º de julho de 2007
Espaço dos Satyros I
Pça. Roosevelt, nº 214 - São Paulo

Realização
Projeto Identidade

Apoio
O Casulo
Os Satyros
Sebo do Bac


PROGRAMAÇÃO
sujeita a modificações

Sábado, dia 30 de junho

[1] 10h às 11:30h - Abre-alas: Contaminações
Mediação: Andréa Catropa, poeta
- Antonio Vicente Pietroforte, escritor e Prof. Dr. Depto. Lingüística, FFLCH-USP
- Glauco Mattoso, poeta
- Anselmo Luis, o Bactéria
- Marcelino Freire, escritor

[2] 13h às 14:30h - Turma do Fundão: A Literatura na Sala de Aula
Mediação: Ivan Antunes, poeta
- Maria Elisa Cevasco, Profa. Dr. Depto. Letras Modernas, FFLCH-USP
- Maria Nilda Mota de Almeida, Dinha, escritora e educadora
- Representante da APOESP (a confirmar)
- Adilson Miguel, editor de literatura juvenil

[3] 14:30h às 17h - E quem vive disso?
Mediação: Ana Paula Ferraz, jornalista e escritora
- Jorge de Almeida, Prof. Dr. Teoria Literária, FFLCH-USP (a confirmar)
- Santiago Nazarian, escritor
- Maria Luíza Mendes Furia, poeta (a confirmar)
- Andrea Del Fuego, escritora

Domingo, dia 1º de julho

[4] 12h às 13:30h - O Além Livro
Mediação: Del Candeias, poeta
- Alberto Guzik, crítico, escritor e dramaturgo
- Lourenço Mutarelli, escritor e cartunista
- Mario Bortolotto, escritor e dramaturgo (a confirmar)
- Eduardo Rodrigues, escritor e cartunista

[5] 14:30h às 16h - Influenza: Soy loco por ti America
Mediação: Vanderley Mendonça, editora Amauta
- Horacio Costa, poeta e Prof. Dr. Depto. Letras Clássicas
- Marcelo Barbão, editora Amauta
- Alfredo Fréssia, poeta e tradutor
- Joca Terron, escritor
- Angélica Freitas, poeta (a confirmar)

14 de maio de 2007

Agora cabelos negros - Rosalía de Castro

Um poema da poeta galega Rosalía de Castro (1837-1885):


Agora cabelos negros,
Mais tarde cabelos brancos;
Agora dentes de prata,
Amanhã dentes quebrados;
Hoje bochechas rosadas,
Amanhã corpo enrugado.
Morte negra, morte negra,
Cura de dores e enganos:
Por que não as matas jovens
Antes que as matem os anos?

(trad. Fábio Artistimunho)

*

Agora cabelos negros,
Máis tarde cabelos brancos;
Agora dentes de prata,
Mañán chavellos querbados;
Hoxe fazulas de rosas,
Mañán de coiro enrugado.
Morte negra, morte negra,
Cura de dóres i engaños:
¿Por qué non matalas mozas
Antes que as maten os anos?

(Rosalía de Castro, in Follas novas, 1880)

11 de maio de 2007

Poesia - Gabriel Aresti

Um poema do basco Gabriel Aresti (1933-1975), autor já freqüentado por este blogue.


POESIA

Dirão
que isto
não é
poesia,
mas
lhes direi
que poesia
é um
martelo.

(Trad. Fábio Aristimunho)

*

POESIA

Esanen dute
hau
poesia
eztela,
baina nik
esanen diet
poesia
mailu bat
dela.

(Gabriel Aresti, 1963)

7 de maio de 2007

Visita ao bordel - Pere Quart

Tradução de um poema do catalão Pere Quart, pseudônimo do poeta Joan Oliver (1899-1986). O próprio poema se apresenta como uma tradução, mas é na verdade, conforme pesquisamos, de autoria do poeta. O aviso final é parte integrante do poema e tudo indica que o autor mencionado na epígrafe, Färs Tabrïz, seja fictício. Esse jogo de espelhos e máscaras certamente visava proporcionar ao seu autor, Joan Oliver, que está por trás de Pere Quart, que por sua vez está por trás de Färs Tabrïz, que estão todos aqui desmascarados na tradução de Fábio Aristimunho, uma maior liberdade de criação dentro de uma temática que beira o grotesco.

Visita ao bordel

........Do poeta iraniano de expressão francesa Färs Tabrïz (1914-1975)

O alcoviteiro mostra-me as pupilas
- este hotel, na verdade, é um bordel -,
que, qual soldados, formam duas filas.

- São feias e, pior, sujas - indulta-as
o homem. - Mas lhe garanto, e é o que importa,
que todas são filhas de puta e putas!

Então entramos num dos aposentos
e estranho tenha sido ele invadido
por escadas, tabuões e escoramentos.

- Os meus clientes - diz o proxeneta -
gostam de fornicar dependurados
neste andaime de obra -, ele alcagüeta.

E eu digo: - Tudo é gosto, tudo é gosto,
mas deve haver o risco da tontura.
Há gostos que dão margem ao desgosto!

- Sexo tem, como tudo, as suas modas
- declara o cafetão, dissimulado -,
mas meu negócio corre sobre rodas.

Então me ocorre, sem muita porfia,
perguntar sobre um ponto especial:
- A toalete, em vaso ou em bacia?

- Traste, então é isso! - urra o cafajeste.
- Você é só um inspetor de merda
que vem tomar o tempo que me reste!

Como fiz outras vezes noutras bases,
com gesto calmo e cabisbaixo, calo-me
e solto, em vez de gritos, certos gases.

. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . .

(Aqui abandonei a versão, paralizado e fastidiado pelos crescentes excessos escatológicos do original.)

Trad. Fábio Aristimunho


O original:

Visita al bordell

........Del poeta iranià d'expressió francesa Färs Tabrïz (1914-1975)

L´alcavot em presenta les pupil.les
-aquest hostal, de fet, és un bordell-,
que formen, com soldats, en dues files.

I l´home em diu: -Són lletges i, a més, brutes,
però us puc garantir, i és el que val,
que totes són filles de puta i putes!

Llavors entrem en una de les sales
i veig que és envaïda estranyament
per tot de cavallets, taulons i escales.

-Als meus clients -m´explica el proxeneta-
els plau de fer l´amor encimbellats
en aquesta bastida de paleta.

Jo que faig: -Tot són gustos, tot són gustos,
però el perill deu ser que els rodi el cap.
Hi ha gustos que originen prou disgustos!

-El sexe té, com tot, les seves modes
-declara el pinxo sorneguerament-,
però el negoci em marxa sobre rodes.

De sobte se m´acut, bé que amb desgana,
d´inquirir sobre un punt especial:
-La neteja, en bidet o en palangana?

-Ara us veig, malparit! -brama el macarra-.
Vós sou només un inspector merdós
i heu vingut a esbotzar-me la guitarra!

Com he fet d'altres cops en semblants casos,
amb gest modest i pesarós, cap cot,
callo i li endinyo, en lloc de crits, certs gasos.

. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . .

(Aquí vaig abandonar la versió, paralitzat i fastiguejat pels creixents excessos escatològics de l'original.)

Pere Quart


P.s.: Aproveito para agradecer à tão prestativa e simpática ajuda que tive do pessoal da Biblioteca d'Abrera, na pessoa de Yolanda Villalón Serrano, e de Sergi Draper, da Biblioteca Guinardó, ambas bibliotecas de Barcelona, sem cuja pesquisa detetivesca e apoio à distância não teria descoberto a epígrafe e as máscaras não cairiam como flores.

3 de maio de 2007

Lançamento - SEMANA



SEMANA
Antologia de blogueiras organizada por Natércia Pontes.
Participação do blogue Papel de Rascunho.
4 de maio de 2007, 18:30h
Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915

2 de maio de 2007

O Ornabi vai fechar

Freqüentei muito o Sebo Ornabi na época de faculdade. Ainda que os preços de lá fossem proibitivos para mim e apesar de nunca ter apreciado a prática de darem o preço conforme a cara do freguês, eu não tinha como fugir do atrativo de salas empoeiradas e abarrotadas de livros e da mesinha posta como se aguardasse o Fernando Pessoa voltar do banheiro.

Freqüentei muito e comprei pouco, é fato. Mas agora, que o Ornabi é quase página virada, fica a impressão de que posso ter freqüentado pouco e que posso comprar ainda um pouquinho mais. O Seu Luiz, português dono do Ornabi, promete liquidar tudo até o fim de maio, com descontos progressivos até acabar o estoque. Vou lá este sábado, que fica aberta até às 13h. Trarei fotos para o Medianeiro.

Para mais informações, aqui as notícias de OESP, CARTA CAPITAL e FOLHA sobre o fechamento do Ornabi.

26 de abril de 2007

Vaca suíça

Um poema do catalão Pere Quart (1899-1986), paródia do poema "A vaca cega", de Joan Maragall. Não pude evitar o "mala leche", em espanhol mesmo, no último verso, primeiro porque não existe uma expressão equivalente em português, e segundo porque a expressão em espanhol nos soa mais familiar do que qualquer outra muleta que se colocasse no lugar. Destaque também para o "barafusta" no terceiro verso, que foi a melhor solução que encontrei por ora.


VACA SUÍÇA

Quando me envolvo numa causa justa
sou um Guilherme Tell, áspera e encrenqueira:
faço, e está feito. Vão à barafusta
vocês e o balde e o banco de madeira!

Meu sangue não sustenta a criança fraca
nem se mistura com um café decente.
Não são vocês quem deve a uma vaca
apalpar, nem um anjo descendente.

Mas ainda lhes resta a indefesa
cabra, que sempre teve alma de escravo.
A mim ninguém ordenha, nem com reza.
Tenho chifres e avanço como um bravo.

E já saibam! Por vales e penhascos
mugirei o desígnio que me safa,
e não esperem desviar-me os cascos
com a iguaria de uma mão de alfafa.

Eu mesma, se não fosse o que me entrega,
a tudo narraria com deleite.
Noutros tempos havia a vaca cega:
eu sou a vaca de la mala leche!

Trad. Fábio Aristimunho


O original:

VACA SUÏSSA

Quan jo m'embranco en una causa justa
com En Tell sóc adusta i arrogant:
prou, s'ha acabat! Aneu al botavant
vós i galleda i tamboret de fusta!

La meva sang no peix la noia flaca
ni s'amistança amb el cafè pudent.
Vós no sou qui per grapejar una vaca,
ni un àngel que baixés expressament.

Encara us resta la indefensa cabra,
que sempre ha tingut ànima d'esclau.
A mi em muny ni qui s'acosti amb sabre!
Tinc banyes i escometo com un brau.

Doncs, ja ho sabeu! He pres el determini,
l'he bramulat per comes i fondals,
i no espereu que me'n desencamini
la llepolia d'un manat d'alfals.

Que jo mateixa, si no fos tan llega,
en lletra clara contaria el fet.
Temps era temps hi hagué una vaca cega:
jo sóc la vaca de la mala llet!

Pere Quart


22 de abril de 2007

Mais um poema catalão

Autor: Juan de Timoneda (1490?-1583). In Cancionero llamado Flor de Enamorados.

Senhoras: assim que entrado,
......não faz uma hora,
meu coração foi roubado
......de uma senhora.

Só entrei neste sarau
......pois confundido:
entrei bem e saio mal,
......de amor ferido.
Por mais que entrasse alertado,
......já a esta hora
meu coração foi roubado
......de uma senhora.

Entrei eu sem qualquer dor
......que bem me importe,
saio ferido de amor,
......só por má sorte.
E por quem fui destratado
......é bailadora:
meu coração foi roubado
......de uma senhora.

É a donzela mais charmosa
......entre as donzelas;
discreta, humana, formosa,
......bela entre as belas.
Pois, donzela, eis-me afogado,
......sou teu agora.
Meu coração foi roubado
......de uma senhora.

Trad. Fábio Aristimunho


O original:

Senyores: des que só entrat,
......no ha una hora,
ja el meu cor trobe robat
......d’una senyora.

Só entrat en aquest ball
......per mon delit:
entrí sa i eixiré mal
......d’amor ferit.
Per bé que entrí reposat,
......en esta hora
ja el meu cor trobe robat
......d’una senyora.

Entrí io sense dolor
......ni cosa alguna,
i eixiré ferit d’amor,
......per ma fortuna;
i la qui m’ha mal tractat
......és balladora:
ja el meu cor trobe robat
......d’una senyora.

És donzella molt galana
......entre donzelles;
és discreta i molt humana,
......bella entre belles.
Puix donzella m’ha nafrat
......i m’enamora,
ja el meu cor trobe robat
......d’una senyora.

Juan de Timoneda