29 de setembro de 2006

Eclipse imparcial

Recebi ontem uma notícia que me deixou demais contente: o poeta hispanófono e amigo muito Alfredo Fressia lança, no dia 11 de outubro, a edição mexicana de seu livro Eclipse: cierta poesía, 1973-2003, que é uma antologia da sua obra conhecida acrescida de um novo livro. A edição uruguaia do livro saiu em 2003, em Montevidéu*.

Tive o privilégio de ter a orelha esquerda assinada por ele (orelha do meu livro, não minha), uma honra (para mim, não sei se tanto para ele, rs). Para saber um pouco mais de Alfredo Fressia, que é uruguaio de nascimento e paulistano –há 30 anos– por adoção, recomendo o ótimo artigo de Dirceu Villa no Jornal de Poesia; mais abaixo, seguem dois seus poemas que certa vez traduzi.

A Fressia, que está de viagem marcada para a Cidade do México nos próximos dias, desejo muitíssima sorte e um eclipse nada parcial, ficando na expectativa de umas fotos solares para o blog.

Merde!





(*) Com o Fressia aprendi que Montevideo vem de MONTE VI DE E–O ("monte sexto de [l]este–oeste"), ou seja, um roteiro de cartografia náutica. Quem suspeitaria.

2 poemas de Alfredo Fressia

Extraídos do livro Eclipse: cierta poesía, 1973-2003, Montevidéu, 2003.

Os persas

Trad. Fábio Aristimunho

Segundo Heródoto, a armada de Xerxes
tinha já deixado Sardes a caminho de Salamina,
quando o sol começou a abandonar seu lugar no céu
e a desaparecer. O dia, sereno e sem a sombra de uma nuvem,
se foi transformando em noite. O sol
tomava a cor da safira e, ao se entreolharem,
os homens se viam pálidos como mortos.
Todas as coisas pareciam banhar-se em um vapor escuro.
O estupor e o espanto se apoderaram do coração
daqueles homens jovens. Xerxes observava o prodígio,
acompanhou-o com atenção e perguntou a seus magos
o que significava. O céu, lhe responderam,
anunciava aos gregos a destruição de suas cidades
pois o sol, diziam, é o astro profético dos gregos
e a lua, o dos persas. Xerxes, em suspense,
encantou-se com a resposta, aliviou seus homens
com palavras confiantes e –não se há de calar nunca
Heródoto– ordenou que retomassem a rota.

Foi ao morrer que compreenderam: morremos
de um eclipse, eternos como a safira,
e seguiremos o retorno das luas
enquanto um Coreuta recitar nossos nomes.
Foi somente para isso que vivemos.

Xerxes morreu no palácio, assassinado por um traidor.


Aeroportos (fragmentos)

Trad. Fábio Aristimunho

.....Os aeroportos são pactos de silêncio. Eu não digo o meu terror, você não diz o seu, ele não diz o dele. E sorrimos, como se houvesse alguma conivência silenciosa. O terror, nos aeroportos, provoca mais sorrisos cúmplices do que diarréias.

....................#

.....Na verdade, as aeromoças são bonecas infláveis. Os pilotos têm hemorróidas mas assim que entram em um aeroporto as hemorróidas lhes param de doer. Os comissários de bordo não são homossexuais: nos aeroportos não há mais sexo. Pode-se fazer, mas não há.

....................#

.....Não é verdade que haja aeroportos mais aeroportos que outros aeroportos. Só os ingênuos podem pensar que Roissy, em Paris, é mais aeroporto que o de Iquitos ou o de Montevidéu. Não. Todos os aeroportos, sem exceção, são implacavelmente aeroportos.

....................#

.....Quantas vezes terei ido buscar amigos meus em aeroportos? Quantas outras me esperaram eles pontualmente em outros aeroportos? Quantas? Eu só me lembro deles, abraçados, hoje vivos ou mortos, sempre depois de termos saído de aeroportos.



Os originais:


Los persas

Alfredo Fressia

Según Herodoto, la armada de Jerjes
ya había dejado Sardes camino a Salamina,
cuando el sol empezó a abandonar su lugar en el cielo
y a desaparecer. El día, sereno y sin la sombra de una nube,
se fue transformando en noche. El sol
tomaba el color del zafiro y, al mirarse entre sí,
los hombres se veían pálidos como muertos.
Todas las cosas parecían bañarse en un vapor oscuro.
El estupor y el espanto se apoderaron del corazón
de aquellos hombres jóvenes. Jerjes veía el prodigio,
lo siguió con atención y preguntó a sus magos
lo que significaba. El cielo, le respondieron,
anunciaba a los griegos la destrucción de sus ciudades
pues el sol, decían, es el astro profético de los griegos,
y la luna el de los persas. Jerjes, suspendido,
se encantó con la respuesta, alivió a sus hombres
con palabras confiantes y –no callará nunca
Herodoto– ordenó que retomasen la ruta.

Al morir lo comprendieron: morimos
de un eclipse, eternos como el zafiro,
y seguiremos el retorno de las lunas
mientras un Coreuta recite nuestros nombres.
Fue sólo para eso que vivimos.

Jerjes murió en palacio, asesinado por un traidor.


Aeropuertos (fragmentos)

Alfredo Fressia

.....Los aeropuertos son un pacto de silencio. Yo no digo mi terror, tú no dices tu terror, él no dice su terror. Y se sonríe, como si hubiera alguna connivencia silenciosa. El terror, en los aeropuertos, provoca más sonrisas cómplices que diarreas.

....................#

.....En realidad, las azafatas son muñecas inflables. Los pilotos tienen hemorroides pero desde que entran en un aeropuerto las hemorroides paran de dolerles. Los comisarios de vuelo no son homosexuales: en los aeropuertos no hay más sexo. Puede hacerse, pero no hay.

....................#

.....No es verdad que haya aeropuertos más aeropuertos que otros aeropuertos. Sólo los ingenuos pueden pensar que Roissy, en París, es más aeropuerto que el de Iquitos o el de Montevideo. No. Todos los aeropuertos, sin excepción, son implacablemente aeropuertos.

....................#

.....¿Cuántas veces habré ido a buscar a mis amigos en aeropuertos? ¿Cuántas otras me esperaron ellos puntualmente en otros aeropuertos? ¿Cuántas? Yo sólo los recuerdo a ellos, abrazados, hoy vivos o muertos, siempre después de haber salido de los aeropuertos.

28 de setembro de 2006

A volta do medianeiro

Ok, vou tentar justificar a minha ausência do blog em poucas palavras:






Espero não ter sido verborrágico.

Agora, de volta ao deserto do real.

Carpe diem!

8 de setembro de 2006

Aviso

Este blog está temporariamente interditado por motivos de férias e estado civil. Aguadem novos versos para breve.

O medianeiro

1 de setembro de 2006

Um louro, um mouro, um mico e um senhor de Porto Rico

Agora um poema divertidíssimo, de um anônimo do séc. XIX, em catalão. Parece que ele foi musicado recentemente, mas ainda não encontrei a música - se alguém tiver uma pista mande pra mim.


UM LOURO, UM MOURO, UM MICO,
E UM SENHOR DE PORTO RICO


Trad. Fábio Aristimunho

Um senhor de Porto Rico
na sacada tinha um louro
emplumado e bom de bico:
um louro a peso de ouro,
desses que só compra um rico.

Um vizinho, que era mouro
de Tetuan, ganhou um mico.
Amarra o mico, o mouro,
na sacada, e fica o louro
na outra, bem longe do mico.

Mas tanto gritava o louro
que um dia se irrita o mico,
e enlouquece como um touro
raivoso... Esconde-se o louro,
destrói a corrente o mico,

salta à gaiola do louro,
sai o louro e bica o mico,
grita o mico, grasna o louro
e, com os berros, sai o mouro
e o senhor de Porto Rico.

– Por que não tranca seu louro?
– Por que não prende seu mico?,
reclamam os dois em coro,
querendo um pegar seu louro
e puxando, o outro, seu mico.

Cai o mico sobre o louro.
O louro lhe crava o bico.
Dentes arreganha o mico
e, arrepiado, morde o mouro
e o senhor de Porto Rico

Este renega seu louro,
jurando matar o mico,
enquanto, furioso, o mouro
provoca o dono do louro
e enfurece louro e mico.

Vai, cabeça erguida, o louro;
sai, cabeça baixa, o mico;
e a eles todos o decoro
faltando, atracam-se o mouro
e o senhor de Porto Rico.

¡Ay, moro, si pierdo el loro!,
lhe diz o de Porto Rico.
Responde, ultrajado, o mouro:
– Pagará bem caro o louro,
ó cristão, se perco o mico!

Do alto desafia o louro,
faz careta, embaixo, o mico,
e não se sabe se é o mouro
quem fala, ou então se é o louro,
ou o senhor de Porto Rico.

Cresce a zorra; voa o louro,
cai na rua sobre o mico...
Se assusta o de Porto Rico,
ao ver em perigo o louro
novamente pelo mico!

Escapa às pressas do mouro.
Entra e dá um tiro no mico,
porém erra e mata o louro...
Cai desmaiado. Ri o mouro,
que corre buscar seu mico.

Esperto, retorna o mouro
com o louro morto e o mico.
Ajuda o de Porto Rico...
E depois lhe envia o louro,
com uma carta, pelo mico,

que diz: “Seis onças em ouro
pelo ataque contra o mico,
de um cristão exige um mouro.
Guarde, dissecado, o louro.
Mas agora pague o mico”.

Vê isso o dono do louro
e se volta contra o mico.
Mata o mico, mata o mouro.
Mortos mouro, mico e louro,
vai-se embora... a Porto Rico!


O original:

UN LLORO, UN MORO, UN MICO,
I UN SENYOR DE PUERTO RICO


Anònim

Un senyor de Puerto Rico
al balcó tenia un lloro
de rica ploma i bon pico:
un lloro dels que fan
oro,
dels lloros que costen pico.

Un veí seu, que era moro,
de Tetuan, va rebre un mico.
Amarra aquest mico, el moro,
al balcó, quedant el lloro
a l’altre, però lluny del mico.

Mes tan i tan xerrà el lloro,
que un dia s’empipa el mico,
i amb rabiós alè de toro
l’embesteix. S’amaga el lloro,
trenca la cadena el mico,

salta a la gàbia del lloro,
surt el lloro, pica al mico,
xiscla el mico, xerra el lloro
i, amb l’esvalot, surt el moro
i el senyor de Puerto Rico.

– Per què no tanca el seu lloro?
– Per què no amarra el seu mico? –
Exclamen els dos fent coro,
volguent l’un agafar el lloro
i estirant-li, l’altre, el mico.

Cau el mico sobre el lloro.
El lloro li clava el pico.
Reganya les dents el mico
i, esbarat, mossega el moro
i el senyor de Puerto Rico.

Aquest renega del lloro,
prometent matar el mico,
mentre que, furiós, el moro
provoca l’amo del lloro
i embesteix a lloro i mico.

Cap amunt s’enfila el lloro,
cap avall s’escorre el mico
i, faltant tots al decoro,
agarrats queden el moro
i el senyor de Puerto Rico.

¡Ay, moro, si pierdo el loro!
li diu el de Puerto Rico.
Replica, cremat, el moro:
- Pagaràs ben car el lloro,
oh, cristià!, si es perd el mico.

A dalt l’escarneix el lloro,
a baix, fa mueques el mico,
i no se sap si és el moro
el que parla, o be és el lloro,
o el senyor de Puerto Rico.

Creix el brogit; vola el lloro,
cau al carrer sobre el mico...
Burrango el de Puerto Rico,
veient-se amb perill el lloro,
altre volta sobre el mico!

Es desfà com pot del moro.
Entra i pega un tiro al mico,
però l’erra i mata el lloro.
Cau desmaiat. Riu el moro
i fuig a buscar el mico.

Eixerit, retorna el moro
amb el lloro mort i el mico.
Auxilia el de Puerto Rico...
I després li envia el lloro
amb una carta, pel mico,

que diu: “
Seis onzas en oro
per l’atemptat contra el mico,
d’un cristià reclama un moro.
Guardi’s, dissecat, el lloro.
Pagui’m ara, a mi, aquest pico”.

Veu això l’amo del lloro.
Es tira damunt del mico.
Mata el mico, mata el moro,
i, mort moro, mico i lloro,
fa un farcell... i a Puerto Rico!

31 de agosto de 2006

A uma adúltera

Mais um Quevedo traduzido.

Repreende a uma adúltera por circunstância de seu pecado

Trad. Fábio Aristimunho

...Só em ti, Lésbia, se vê que foi perdido
o pejo do adultério feito ao léu,
pois que tão claramente e tão sem véu
por ti o bom costume é ofendido.

...Por Deus, por ti, por mim, por teu marido,
não corra tua infâmia todo o céu:
fecha a porta, cuida o povaréu,
que o pecado nasceu para escondido.

...Não te digo que deixes teus amigos,
mas sim que não convém sejam notados
pelos poucos que são teus inimigos.

...Saibas que teus vizinhos, ultrajados,
comentam que te agradam os perigos
dos teus pecados mais que teus pecados.


O original:

Reprehende a una adúltera la circunstancia de su pecado

Francisco de Quevedo

...Sólo en ti, Lesbia, vemos que ha perdido
el adulterio la vergüenza al cielo,
pues que tan claramente y tan sin velo
has los hidalgos huesos ofendido.

...Por Dios, por ti, por mí, por tu marido,
que no sepa tu infamia todo el suelo:
cierra la puerta, vive con recelo,
que el pecado nació para escondido.

...No digo yo que dejes tus amigos,
mas digo que no es bien que sean notados
de los pocos que son tus enemigos.

...Mira que tus vecinos, afrentados,
dicen que te deleitan los testigos
de tus pecados más que tus pecados.

30 de agosto de 2006

"Do mal que estou não vou sair"

A poesia medieval catalã lembra muito, não por acaso, a poesia provençal, com seu padrão de amor cortês e musicalidade. O poema a seguir é uma pequena pérola do período.


Do mal que estou...

Trad. Fábio Aristimunho

Do mal que estou não vou sair
......se não me olhar
com olhos tais que eu possa ouvir
......que não quer mais
que eu por você venha a partir.

E se partisse, então veria
......o amor tão forte
que eu lhe guardava, e choraria
......a triste morte
daquele a quem já não queria;

que o mal que estou não vou conter
......sem seu olhar
pousado em mim, a me dizer
......que não quer mais
que eu por você venha a morrer.


O original:

Del mal que pas...

Joan Roiç de Corella (1438-1497)

Del mal que pas no puc guarir
......si no em mirau
ab los ulls tals que puga dir
......que ja no us plau
que jo per vós haja a morir.

Si muir per vós, llavòs creureu
......l’amor que us port,
e no es pot fer que no ploreu
......la trista mort
d’aquell que ara no voleu;

que el mal que pas no em pot jaquir
......si no girau
los vostres ulls, que em vullen dir
......que já no us plau
que jo per vós haja a morir.

29 de agosto de 2006

A Roma sepultada em suas ruínas

Mais uma transversão, desta vez do castelhano para o português:

A Roma sepultada em suas ruínas

Trad. Fábio Aristimunho

...Procuras Roma em Roma, ó peregrino,
e achar em Roma a própria Roma falhas;
se agora são cadáver as muralhas,
é de si mesmo túmulo o Aventino.

...Jaz, onde antes reinava, o Palatino;
e, do tempo corroídas, as medalhas
mais parecem destroços de batalhas
de outras idades que brasão latino.

...Só o Tibre restou, cuja corrente,
se a regou cidade, hoje sepultura,
a chora em som funesto e comovente.

...Ó Roma, de teu esplendor e altura
ruiu o que era firme, e tão somente
o transitório permanece e dura.


O original:

A Roma sepultada en sus ruinas

Francisco de Quevedo

...Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!,
y en Roma misma a Roma no la hallas;
cadáver son las que ostentó murallas,
y tumba de sí proprio el Aventino.

...Yace donde reinaba el Palatino;
y limadas del tiempo, las medallas
más se muestran destrozo a las batallas
de las edades que blasón latino.

...Sólo el Tibre quedó, cuya corriente,
si ciudad la regó, ya, sepoltura,
la llora con funesto son doliente.

...¡Oh, Roma!, en tu grandeza, en tu hermosura,
huyó lo que era firme, y solamente
lo fugitivo permanece y dura.


28 de agosto de 2006

Notícias do vácuo

Um poema:

NOTÍCIAS DO VÁCUO

Hoje os astrônomos decidiram que Plutão não é mais um planeta.
Dizem que Plutão é muito menor que a Terra e até mesmo menor que a Lua.
Bobagem.
Muitas vezes já me disse que o mês é bem maior que o meu salário,
mas não deixei de constelar contas e cadastros
e nem por isso os astros deixaram de ser astros.

.....Fábio Aristimunho

Fim de semana

Carpe diem

In vino veritas

24 de agosto de 2006

Transversão: Mar portugués

Fernando Pessoa, vertido ao castelhano. Ainda não consegui uma boa solução para o terceiro verso, que me incomoda. No último verso optei por reflejar em vez do neologismo espejar porque uma amiga mexicana disse que não entenderia o sentido de espejar se eu não explicasse. Então tá: reflejar.



MAR PORTUGUÉS

Trad. Fábio Aristimunho

Oh mar salado, ¡cuánto de tu sal
son lágrimas de Portugal!
Te cruzamos: cuántas madres lloraron,
cuántos hijos en vano oraron…
¡Cuántas novias se quedaron solteras,
oh mar, para que nuestro fueras!

¿Y valió? Vale todo que se empeña
si el alma no es pequeña.
Si uno traspasar quiere el Bojador
hay que traspasar su dolor.
Dios le dio el abismo y el riesgo al mar
– y al cielo le hizo reflejar.



O original:


MAR PORTUGUÊS

Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

22 de agosto de 2006

A nuvem

Na seqüência, um poema infantil. Tenho uma pequena série de poesia infantil, que andava guardada esperando novos poemas, mas com o tempo perdi o interesse pelo assunto e a série estancou. Hoje não sei bem o que fazer com ela – só sei que fica uma sensação de assunto pendente.



A nuvem

Uma nuvem lá no céu
lembra um barco de papel;
uma nuvem lembra um homem
.......de chapéu
que chegou e que partiu.

Uma nuvem que corria
lembra à mãe que é meio-dia,
lembra a pressa pro almoço
.......da Maria,
lembra a vida de quem viu.

Lembra a casa, lembra o pão,
lembra os filhos que virão.
Uma nuvem lembra a vida
.......aqui do chão
que passou e ninguém viu.

Passa a nuvem, passa o vento,
passa o dia, passa lento...
E se deixa a vida passa
.......feito a nuvem:
ninguém lembra – ninguém viu.

.....Fábio Aristimunho

21 de agosto de 2006

Primavera dos Livros e seu contraponto

do correspondente, direto do Centro Cultural

Sim, teve Primavera dos Livros no fim de semana (e sim: o blog Medianeiro foi acompanhar de perto o que rolou, como não podia deixar de ser). A PL deste ano teve diversas atrações, de cinema a oficinas, de exposição a palestras. Mas o meu grande destaque afetivo vai mesmo para o Espaço Haroldo de Campos, um palquinho montado pela Casa das Rosas bem no meio evento, onde rolou leitura de poesia e de contos, declamação, entrevistas, intervenção do público e de tudo o mais um pouco. Palmas para a organização pela iniciativa.

Como divulguei semana passada, no sábado teve o sarau do pessoal do Projeto Identidade, com leituras de Ana Rüsche, Andréa Catrópa, Donny Correia, Eduardo Lacerda, Elisa Buzzo, Lilian Aquino, Renan Nuemberger, Victor Del Franco, Mônica Aquino e também Fábio Aristimunho, que chegou meio atrasado (pra variar) mas a tempo de pegar a rabeira. Pelo palquinho ainda passaram os poetas Ruy Proença, Fábio Weintraub, Pádua Fernandes, Virna Teixeira e Glauco Mattoso; Claudinei Vieira com o Desconcertos; os escritores convidados Daniel Galera, Marcelino Freire, Rogério Augusto e Andréa Del Fuego. Alto nível.

Mas ok, convenhamos: isso tudo era só um chamariz secundário. A grande razão de ser da Primavera dos Livros, como todo mundo sabe, são mesmo os livros com descontos, como manda o bom mercado. De minha parte, não achei os preços assim tão primaveris quanto em outros anos, se bem que não me poupei de uns mirréis. Em outras edições – bons tempos aqueles – eu chegava a comprometer parcela considerável do meu salário com livros; nesta Primavera, no entanto, vivi o meu inverno dos livros particular. Ninguém merece.

Confira nas fotos tudo o que este blogueiro testemunhou da Primavera dos Livros, no melhor estilo Caras.

Carpe diem e até a próxima.

Fotos da Primavera dos Livros - 1


Eduardo L., de costas


Fábio A., se achando


Ana R., Vanderley M. e Virna T.: A advogada, o editor e a neurologista


Pedro T., Vidal Bagathielasch e Fernando T.


campeão de vendas


me agüenta

Fotos da Primavera dos Livros - 2


Desconcertos com Vidal ao fundo


Fazemos o que fazemos de melhor


Espaço H. de Campos: panarômica


Ruy P. com Fábio W. ao fundo


com Marcelino F., Claudinei V. e Andréa D.F. - mas faz de conta que é pra Caras


Jaguar, jaguaríssimo

19 de agosto de 2006

Arte medianeira

A artista plástica que se diz ‘amadora’ (e os artistas não são todos amadores?) Patrícia Luciane de Carvalho, de Curitiba, pintou alguns quadros a partir de poemas do meu livro Medianeira. São 14 ao todo, se não me engano.

Ela inclusive me deu de presente um deles, inspirado na capa e no poema Inácio, e que já está devida e orgulhosamente pendurado em casa junto das minhas estantes. Dos demais ainda estou aguardando as fotos.

Pelo que me disse, a esta altura os quadros estão todos em mãos alheias e ela agora está aos poucos fotografando um por um para me mandar o registro. Espero que não demore muito!

Veja aí o bonito trabalho da Patrícia:



Inácio



Meridionais



Cacto


Para quem quiser dar uma alô diretamente para a artista (a quem reitero, agora publicamente, que me senti muitíssimo lisonjeado com a escolha e feliz pelo meu livro ter sido medianeiro para a sua criação):
plcarvalho@yahoo.com.br.

Recebendo mais fotos, postarei.

Carpe diem!

17 de agosto de 2006

Alguma transversão: A vaca cega

O poema La vaca cega, do catalão Joan Maragall, é um dos poemas mais densos que conheço. Datado do final do século XIX, é de uma tragicidade contida, muda, e ao mesmo tempo bastante lírica: foca uma questão humana (ou animalesca) e com isso atinge o sublime. Mesmo conciso – 23 versos, apenas –, consegue ser um dos maiores monumentos da língua catalã.

Existem traduções do poema para diversos idiomas. No português, parece que a mais conhecida é a do Ronald Polito. Eu arrisquei fazer também a minha pequena transversão, conforme abaixo, que espero que não faça feio.



A VACA CEGA

Trad. Fábio Aristimunho

Topando de cabeça em alguns tocos,
rumando maquinal em busca d’água,
lá vem a vaca solitária. É cega.
Com boa pontaria e uma pedrada,
o zagal lhe vazou um olho, e o outro
cobriu-lhe uma membrana: a vaca é cega.
Da fonte vem beber, como antes vinha,
mas não com a firmeza de outros tempos
nem com as companheiras: vem sozinha.
Suas colegas, por declives, morros,
no silêncio do prado e na ribeira,
balançam o chocalho, enquanto pastam
a relva fresca ao léu... Ela cairia.
Dá de cara no afiado bebedouro
e recua, afrontada; mas retorna,
baixa a cabeça na água e bebe, calma.
Bebe pouco, sem sede. Depois ergue
ao céu, enorme, sua córnea testa
num grande gesto trágico; então pisca
sobre as meninas mortas, e se volta,
órfã de luz embaixo do sol que arde,
palmilhando um caminho inesquecível,
brandindo lânguida uma cauda longa.



O original:

LA VACA CEGA

Joan Maragall

Topant de cap en una i altra soca,
avançant d’esma pel camí de l’aigua,
se’n ve la vaca tota sola. És cega.
D’un cop de roc llançat amb massa traça,
el vailet va buidar-li un ull, i en l’altre
se li ha posat un tel: la vaca és cega.
Ve a abeurar-se a la font com ans solia,
mes no amb el ferm posat d’altres vegades
ni amb ses companyes, no: ve tota sola.
Ses companyes, pels cingles, per les comes,
pel silenci dels prats i en la ribera,
fan dringar l’esquellot, mentre pasturen
l’herba fresca a l’atzar... Ella cauria.
Topa de morro en l’esmolada pica
i recula afrontada; però torna
i abaixa el cap a l’aigua i beu calmosa.
Beu poc, sens gaire set. Després aixeca
al cel, enorme, l’embanyada testa
amb un gran gesto tràgic; parpelleja
damunt les mortes nines, i se’n torna
orfe de llum, sota del sol que crema,
vacil·lant pels camins inoblidables,
brandant llànguidament la llarga cua.



in CAPDEVILA, Josep Ma. (tria). Les cent millors poesies líriques de la llengua catalana. 3. ed. Barcelona: Barcino, 1936. p. 151.

16 de agosto de 2006

Primavera dos Livros

Neste fim de semana acontece a quarta edição da Primavera dos Livros, em São Paulo. Será no Centro Cultural São Paulo, onde várias editoras pequenas e médias venderão os livros do seu catálogo com descontos de até 40%.

Paralelamente haverá uma programação bem variada de eventos, tais como debate com escritores, lançamentos de livros, oficinas de leitura para crianças, mostra de cinema e leitura de poesia. A programação completa pode ser consultada no site do evento.

Eu estarei em um dos saraus, junto com outros poetas amigos meus que fazem parte do Projeto Identidade, como se pode ver no panfleto ao lado.

Nos vemos lá!

*

PRIMAVERA DOS LIVROS
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 - São Paulo-SP
17 a 20/8, das 10h às 21h
www.libre.org.br/primavera

15 de agosto de 2006

O Evangelho segundo a Praça Roosevelt

Para manter um hábito saudável, segue um poema revisitado. Esse saiu, em uma versão anterior, na revista FNX n. xix. Fazia originalmente parte da poesia alheia, ou seja, era um poema desentranhado na íntegra de um texto de autoria de um terceiro – no caso, um artigo de jornal. Um tempo depois de publicado, relendo-o, passei a achar que o poema podia ser mais expressivo sem as limitações alheias. Foi isso que me levou a, não sem alguma ponderação, romper de vez com a escola alienista e republicar o poema por aqui, já devidamente adulterado, conforme segue. (Os versos 1, 4, 5, 8 e 9 deveriam ser recuados para a direita, mas o blog não o permitiu fazer.*)


O EVANGELHO SEGUNDO A PRAÇA ROOSEVELT

......................extraído de um artigo de jornal

.....o que restou, em mim, daquela praça,
além dessas pessoas que se cruzam, terríveis, no contrapasso,
com sua urgência de mundo, de automóveis, de mais metros adiante,
.....são esses santos e similares
.....que nos tentam extrair a ausência,
e uma certa pedagogia de mundo de quem vira do avesso
os próprios bolsos diante de mais aptos. pois são, acaso,
.....os que têm distanciamento que têm a dizer?
.....seus monólogos inauditos? – não:
feito deus ouvido a decibéis, são os moisés da praça roosevelt.

. ....Fábio Aristimunho




(*) Pós-escrito: já aprendi como se faz e incluí o espaçamento.

Fotos de Paraty - 1

SÁBADO 12/8

recém-chegados


marcando presença...


"inveja do pênis" (Freud explica)


Altivo FM, no lançamento da Bagatelas


brinde da Bagatyelaxxx

almoço-jantar


coquetel da Off-FLIP


sarau maloqueiristas/Cooperifa

14 de agosto de 2006

Fotos de Paraty - 2

DOMINGO 13/8

retrato do artista quando a bordo


- Very good, FLIPer!


LOST - los tímidos


na vida, como na arte, é preciso ter estilo


tentativa de motim


Aperecem nas fotos, não necessariamente nesta ordem: Ana R., Urso, Altivo, Manu, Fernando T., Fernanda, Ana P., Marcela (irmã da Ana P.), Victor Del Franco, Virna, Edward, Tostes, Luana, Flávio e Fábio Aristimunho.

Estive em Paraty

Estive, mas não para a festa de gala, como testemunham as fotos. Juntamos uma galerinha e fomos fazer a nossa própria festa no quintal alheio. E Paraty, nesta época, é um imenso FLIPerama (perdoem o trocadilho fácil): você roda por toda parte, bate aqui e ali, mas sempre acaba caindo num buraco.

No nosso caso, fomos cair de bicão no lançamento da revista Bagatelas (Bagatyelaxx). Os cariocas arrumaram patrocínio de - pasme - nada menos que uma cachaçaria, levando nessa brincadeira um estoque de charutos, canequinhas personalizadas e, vejam só, um fornecimento ilimitado de cachaça para o lançamento. O evento teve, acredite se quiser, até literatura! ("A reviXta é de graça maiX o autógrafo é 50 reaiX...") Ainda bem que alguém teve sobriedade suficiente para tirar a gente dali antes que algum de nós começasse a declamar o Soneto de Fidelidade para o barril de cachaça.

Mais tarde fomos parar numa palestra da Off-FLIP, que até que teria sido produtiva se não tivesse que escutar alguns absurdos pseudomercadológicos: agora sei que se eu não tiver que gastar com remédios este ano terei de gastar o equivalente em livros, e se não o fizer nenhuma agente literária deslumbrada vai se interessar por mim, e ainda que se interessasse eu teria que repensar o uso que faço das minhas vírgulas, parênteses e travessões... Muito esclarecedor, como se pode ver.

O que salvou esse evento foi a chance única de saldar o nosso camarada Marcelino-Jabuti-Freire com um coro de "jaburu! jaburu! jaburu!", lembrando o prêmio alternativo que ele mesmo criou, diante da platéia atônita. Ele, claro, levou na boa, e ainda tirou um barato com a gente, dizendo que achou que o pessoal da Flap tinha errado de endereço.

No sábado ainda fomos para um sarau em praça aberta organizado pelos maloqueiristas e o pessoal da Cooperifa, que fizeram sua própria FLIP - Festa Literária Periférica. Os caras são profissionais, não deixam nenhum vácuo entre as declamações, como calha acontecer nesses recitais que dependem da participação do público.

E o domingo, por fim, reservamos para o merecido descanso literário. Afinal, também é preciso viver a poesia.

No balanço geral, apesar de não termos conseguido vender um livrinho sequer, como nos nossos melhores sonhos, Paraty valeu a pena. Posso não ter visto o Jô, o Jabor ou o Caetano, mas foi muito bom rever algumas figurinhas que estão cada vez mais fáceis no meu álbum, como se pode ver nas fotos.

Carpe diem e até a próxima.

11 de agosto de 2006

Poesia sem fundo

A série abaixo foi feita logo depois dos dois diazinhos que passei no Rio. Está engavetada por enquanto, mas ainda pretendo voltar a ela - e também ao Rio.


POESIA SEM FUNDO

1.
o motorista do ônibus,
mãos grandes e firmes e fortes,
fala somente o indispensável
mas engata uma segunda-feira
como ninguém diria.

2.
na mesa um souvenir:
“lembrança do rio”.
e o dia quente lá fora
invariavelmente mais frio
que o ar-condicionado
aqui de dentro.

3.
a moça da calçada
ela passa tão doce
que chega a ser irritante.
não houvesse tantas passantes
o dia perdia o sal.

4.
enquanto há passarinhos
cantando,
meus cheques passarão,
voando.
se eu tivesse o talonário dos seus olhos
não precisava de tantas desculpas.

5.
o caixa eletrônico
engoliu minha identidade.
e eu que precisava
de um isqueiro novo,
um sonrisal
e uma boa foda.

10 de agosto de 2006

Um pequeno (e importante) esclarecimento

De início, queria esclarecer que este blog foi criado à minha revelia e sem o meu consentimento. Até onde eu sei, os responsáveis são Sr. G., Sr. V., Sr. E.L. e - como não poderia deixar de ser - Srta. A.R. Eu bem que processaria todos eles por difamação (onde já se viu publicar uma paródia horrenda como se fosse sério?!), mas parece que eles já levantaram os argumentos jurídicos da defesa. Nesse caso, c'est la vie.

O fato é que nunca quis ter um blog pois já tenho atividades improdutivas demais que preenchem até o meu tempo em tese produtivo. Acho que até manifestei isso na FLAP/Rio, quando falei de blogs, poesia torpedista, poesia alheia e outros modismos: a primeira coisa que perguntam hoje em dia, quando descobrem que você escreve, não é mais qual o seu livro, mas sim qual o seu blog.

Sempre resisti a ter um blog e já me achava o último dos samaritanos. Mas se você não cria um blog os amigos criam um pra você! Por isso estou assumindo a partir de agora este blog, sem muita noção ou idéia do que vou passar a postar ou mesmo como se faz isso. As postagens anteriores à última não são minhas, mas vou deixar elas por aqui mesmo, só com umas pequenas atualizações.

Era isso. Carpe diem e até a próxima.

Miréia - alguma transversão

Comecei a fazer uma transversão de Mirèio, de Frédéric Mistral. O interesse surgiu depois de uns e-mails com amigos, quando descobri que sabia quase nada de Mistral. Fui olhar o meu Mirèio que comprei sem nunca abrir e na hora já tomei gosto.

O texto original é em provençal e o autor usa uma escrita muito própria, que passou a ser chamada "grafia mistralesa", cheia de regionalismos e galicismos e que é bastante criticada por estudiosos do provençal. Por conta dessa grafia o texto acaba um pouco obscuro, algumas passagens são realmente difíceis de entender sem o apoio da versão francesa.

No esforço de ler o texto, acabei rabiscando uma tradução das primeiras estrofes. Nunca estudei provençal, mas saber um pouco de catalão e francês ajuda bastante nessas horas, sem falar de alguma intuição.

Segue, por ora, o resultado dessa minha pequena transversão. Procurei preservar o mais possível o ritmo e o aspecto formal. Quem sabe um dia eu não traduzo os 700 versos restantes?


***


Miréia (excerto)
trad. Fábio Aristimunho

........Canto uma moça de Provença.
........Nos amores de sua inocência,
desde a Crau até o mar, pelos campos de trigo,
........humilde seguidor de Homero,
........eu quero segui-la. Como era
........não mais que uma moça da terra,
deu que só na Crau fosse um nome conhecido.

........Ainda que seu rosto brilhasse
........só por ser jovem, e não lhe ornasse
sequer diadema de ouro ou finíssimo manto,
........quero que em glória seja alçada
........como uma rainha, e adulada
........por nossa língua desdenhada,
pois cantamos por vós, ó pastores dos campos!

........Tu, Senhor Deus da minha pátria,
........tu que nasceste entre os rupestres,
dá-me alento e incendeia estas minhas palavras!
........Tu sabes: em meio às verduras,
........nos primeiros raios da aurora,
........quando a figueira está madura,
vem o homem feito lobo espoliar toda a árvore.

........Mas sobre a árvore que ele esbulha
........tu preservas sempre algum galho
aonde não alcança a mão ruinosa do homem,
........belo rebento prematuro
........e oloroso e intocado e puro,
........belo madalênico fruto
aonde o pássaro do ar vem saciar sua fome.

........Eu bem o vejo, esse graveto,
........e seu frescor me deixa inquieto!
Eu vejo, em pleno céu, e o vento a balançá-los,
........seu ramo e seu fruto imortal...
........Bom Deus, Deus amigo, nas asas
........de nossa língua provençal,
permita que eu alcance o alto galho dos pássaros!

...


O original:

Mirèio
Frédéric Mistral

........Cante uno chato de Prouvènço.
........Dins lis amour de sa jouvènço,
A travès de la Crau, vers la mar, dins li blad,
........Umble escoulan dóu grand Oumèro,
........Iéu la vole segui. Coume èro
........Rèn qu’uno chato de la terro,
En foro de la Crau se n’es gaire parla.

........Emai soun front noun lusiguèsse
........Que de jouinesso; emai n’aguèsse
Ni diadèmo d’or ni mantèu de Damas,
........Vole qu’en glòri fugue aussado
........Coume uno rèino, e caressado
........Pèr nosto lengo mespresado,
Car cantan que pèr vautre, o pastre e gènt di mas!

........Tu, Segnour Diéu de ma patrìo,
........Que nasquères dins la pastriho,
Enfioco mi paraulo e douno-me d’alen!
........Lou sabes: entre la verduro
........Au soulèu em’ i bagnaduro
........Quand li figo se fan maduro,
Vèn l’ome aloubati desfrucha l’aubre en plen.

........Mai sus l’aubre qu’éu espalanco,
........Tu toujour quihes quauco branco
Ounte l’ome abrama noun posque aussa la man,
........Bello jitello proumierenco
........E redoulènto e vierginenco,
........Bello frucho madalenenco
Ounte l’aucèu de l’èr se vèn leva la fam.

........Iéu la vese, aquelo branqueto,
........E sa frescour me fai lingueto!
Iéu vese, i ventoulet, boulega dins lou cèu
........Sa ramo e sa frucho inmourtalo...
........Bèu Diéu, Diéu ami, sus lis alo
........De nosto lengo prouvençalo,
Fai que posque avera la branco dis aucèu!

...